11/08/2016

[Report] VOA Heavy Rock Festival 2016

Naquela que já é uma tradição, a  Songs For The Deaf Radio marcou mais uma vez presença no festival de verão organizado pela Prime Artists, desta vez em Corroios com o nome VOA Heavy Rock Festival. Em ano de mudança, contestações, amores e ódios, não se admitiria erros e a organização mostrou-se à altura do desafio, mostrando que a experiência é também no seio da organização de eventos de metal uma enorme virtude. Mas centrando-nos no que realmente importa, a música, o primeiro dia, sexta-feira dia 5 de agosto, trazia a palco grupos de cinco países diferentes, cobrindo um vasto leque de géneros de metal. 
Com a pontualidade a que já estamos habituados pela organização, abriram o festival os nacionais Dark Oath.
Com um novíssimo álbum “When Fire Engulfs The Earth” para apresentar ao público, centraram toda a sua atuação no mesmo, trazendo um Symphonic Melodic Death capaz de agradar à generalidade dos presentes, ainda em pouco número. Apesar do muito calor que se fazia sentir, foram capazes de trazer para a frente do palco muitos dos que já se encontravam no recinto, que os receberam com aplausos. Beneficiando de um som muito bom, como seria apanágio durante todo o festival, mas com pouco tempo para tocarem, brindaram a plateia com os temas ‘Land Of Ours’, ‘The Tree Of Life’ e ‘Watchman Of Gods’ antes de terminarem com o tema titulo ‘When Fire Engulfs The Earth’. Estava aberto da melhor maneira o festival com um das boas promessas do underground nacional e um bom prenúncio para os grandes concertos que seguiriam nos dois dias de festa. 
   De seguida, oriundos de Itália, surgiram os Adimiron, e o peso da sua música, uma fusão de thrash e death metal entre outras influências, que encontrou um público ainda algo tímido, com muitos a preferirem ficar à sombra, hidratando-se com cerveja para resistir às horas de calor. De qualquer modo, foram conquistando o seu público, a quem apresentaram o ultimo álbum “Timelapse”, mais representativo da sonoridade que querem atualmente produzir. Tocaram seis temas do referido álbum, sem tempo para mais, valendo a entrega em palco, merecedora dos aplausos que receberam no final da actuação. 

 Pelas 17h45 surgiam em palco dois elementos dispostos a dar um concerto ao nível de qualquer quinteto de músicos competentes. Os Mantar trouxeram da Alemanha na bagagem uma sonoridade sludge \ doom metal, uma originalidade, uma dedicação e competência admiráveis. Com apenas dois álbuns editados, “Death By Burning” (2014) e “Ode To The Flame”(2016), dividiram a setlist pelos mesmos, com especial ênfase no primeiro álbum e foram provocando a admiração daqueles que ainda desconheciam aquela dupla que em palco destilava suor e qualidade técnica. Contudo com o passar do tempo a sua música sofre pela falta de mais elementos na banda, tornando-se algo unidimensional, acabando por deixar o público um bocado “morno” e consequentemente perdendo algum do entusiasmo inicial. Por isso quando saíram de palco, no pensamento de muitos já estava o concerto que se seguia, os suecos Katatonia. 

 Os Katatonia subiram ao palco ainda com o sol bem no alto, mas a sua música mais obscura e soturna não se deixou afectar pela falta do ambiente ideal. 
Com a casa já bem composta para ver aqueles que são um dos grandes nomes do Doom Metal mundial, os primeiros acordes que ecoaram foram dos temas ‘July’ e ‘Deliberation’ do aclamado álbum “The Great Cold Distance” que arrancaram logo reações muito positivas, que ao som dos aplausos se deixaram transportar para um concerto íntimo e emotivo. Com o álbum “The Fall Of Hearts” lançado já este ano, para dar a conhecer aos fãs portugueses, começaram por apresenta-lo pelo tema ‘Serein’, que a plateia recebeu muito bem, demonstrando que o novo álbum tem rodado nos leitores do fãs nacionais com carinho, havendo inclusive entre os presentes quem dominasse perfeitamente a letra do tema. Seguiram-se temas dos álbuns “The Great Cold Distance”, “The Fall Of Hearts”, “Dead End Kings” e “Night Is The New Day” sem que a banda mostrasse disponibilidade para viajar até aos trabalhos mais antigos. O vocalista Jonas Renkse sofreu bastante com o calor mas sem que isso tenha impedido um grande desempenho vocal. Foi essa competência e entrega da parte do grupo que fez com que os problemas técnicos que sofreram fossem facilmente esquecidos, tendo provocados atrasos no início dos temas mas que não afetaram a maneira como os mesmos foram executados. Para terminar o tema ‘Forsaker’ do álbum Night Is The New Day encerrou a actuação com a emotividade que começara, duma forma satisfatória mas que terá sabido a pouco para os que se deslocaram ao festival para verem os suecos. A boa notícia é que dia 14 de outubro há mais em lisboa. 

Com a noite surgiram os britânicos Anathema, banda bem conhecida e acarinhada do público nacional, com o qual estabeleceram uma relação muito especial e próxima, cheia de concertos memoráveis e momentos marcantes (quem não se lembra de uma atuação em Almada com Vincent Cavanaugh a não conseguir conter a emoção e chorar enquanto o público cantava em coro). 
Iniciaram com ‘Anathema’ do album “Distant Satellites” e mal a música começa a entoar no ar, cria-se instintivamente um ambiente especial, não só pela plateia que canta com a banda, mas mais que isso sentem aquelas palavras com a mesma emoção do grupo que solta as notas musicais com o coração, num momento de comunhão que deixa sobre o recinto uma névoa de sentimentos em estado puro. 
  Prosseguiram com ‘Untouchable’, Parte 1 e Parte 2 do álbum “Weather Systems” para mais um momento mágico. Depois ‘Thin Air’ e ‘A Simple Mistake’ do álbum “We're Here Because We're Here”, ’The Lost Song, Part 1’ do álbum “Distant Satellites”,’ The Beginning and the End’ do álbum “Weather Systems”, ‘Universal’ do álbum” We're Here Because We're Here”, ‘Closer’ e ‘A Natural Disaster’ do álbum “A Natural Disaster”  mantiveram a toada emotiva da actuação perante um público que se ia deixando guiar para a dimensão onde residem os fantasmas narrados naquelas canções. O tema ‘Distant Satellites’  foi tocado iluminado pelas luzes dos telemóveis como se fossem satélites deambulando junto ao palco e para terminar do álbum “Alternative 4” o tema que nunca pode faltar ‘Fragile Dreams’. Deixaram o palco sob um coro de aplausos provando que tinham o “peso” suficiente para fazerem parte do festival, ainda que pudesse existir quem os achasse um corpo estranho.

  Para fechar o primeiro dia tocaram os Opeth, banda que prima pela originalidade e capacidade para se reinventar, conservando e conquistando fãs fiéis com uma dedicação quase religiosa que garantem sempre uma casa bem composta como se verificou no primeiro dia do festival.  
Começaram anunciando a sua presença com o peso de ‘Cusp of Eternity’ do álbum “Pale Communion” e logo demonstraram um virtuoso trabalho técnico patente num eficaz jogo de ritmos e tonalidades. Os temas ‘The Devil's Orchard’ e ‘ Heir Apparent’ dos álbuns “Heritage” e “Watershed” mantiveram o foco nos instrumentos onde a voz de Mikael Åkerfeldt surge como a matéria que une tudo numa sólida estrutura de diferentes texturas, conquistando os fãs que se deslocaram a Corroios, que lhes dedicavam muitos aplausos. Depois, do já longínquo “Blackwater Park”, tocaram ‘The Drapery Falls’ para gáudio dos presentes numa demonstração clara de como o mesmo álbum é um marco especial para os fãs que cresceram com ele ou que o conheceram mais tarde. Mikael Åkerfeldt alongava-se, sempre que as pausas entre temas o permitia, nos seus já habituais diálogos com a plateia sempre com dotes de humor, com assuntos que iam de histórias do passado ao tamanho do seu bigode, procurando entreter o público em todos os momentos da actuação. Seguiu-se um tema que não tem integrado as últimas passagens por Portugal, ‘To Rid the Disease’ do álbum “Damnation” naquela que foi a única viagem até ao ano de 2003. ‘I Feel the Dark’, ‘Demon of the Fall’, ‘The Grand Conjuration’, ‘Deliverance’ foram os temas com que concluíram um concerto que mereceu muitos aplausos e que fechava um dia muito positivo, subindo as expectativas para o dia seguinte. 

  O segundo dia do festival, sábado dia 6 de agosto, prometia mais peso e até mais público, mas quando os espanhóis Soldier subiram ao palco apenas a parte do peso correspondia à expectativa, já que quando iniciaram a actuação ainda não eram muitos os que deambulavam pelo recinto. Começaram sem dó nem piedade a descarregar o seu Thrash metal com claras influências da escola de Bay Area, e logo conseguiram soltar headbanging entre os que se chegaram à frente do palco. Com pouco tempo para tocar, tentaram tirar proveito do mesmo e apresentarem o maior número de temas possíveis, num concerto centrado no último álbum “Great Western Oligarchy”, com excepção dos temas ‘Destroyers’ e ‘Revolt’ com o qual terminaram o espectáculo. Uma actuação que não primou pela originalidade mas pela competência, que cumpriu bem a função de dar o mote para o que seguiria no resto do dia \ noite.

 Os veteranos nacionais Equaleft entraram com força ao som do tema ‘We are…’ contando com alguns fãs de longa data entre a plateia. 
Afinal já desde 2004 que com dedicação fazem parte do underground nacional, contando já com uma demo, um EP, um muito bom álbum “Adapt & Survive” e uma boa série de bons concertos com os quais cimentaram uma forte posição entre os grupos nacionais. Com uma setlist dedicada ao único álbum lançado, soltaram o seu metal com muito peso e groove que nem mesmo o forte calor que se fazia sentir conseguiu conter as reações da plateia, muito headbanging e os primeiros mosh e circle pit dignos de registo do festival. Tema a tema as músicas iam atingindo quem assistia como uma massa sólida quebrando amarras, libertando todos para um bailarico que duraria a tarde toda não fosse o tempo reduzido de actuação que lhes estava destinado. Quanto o último tema ‘Maniac’ chegou ao fim, já se tinha suado toda a cerveja do dia anterior. Para a memória ficam os gritos e os aplausos dirigidos à banda como uma promessa de encontros futuros. 

   Os constantes apelos por Black Metal que muitos festivaleiros faziam na página do evento surtiram efeito e as sonoridades mais obscuras invadiram o palco ainda com o sol bem no alto. Das montanhas helvéticas surgiram os Schammasch, trazendo consigo uma maneira pouco ortodoxa de fazer Black Metal, por vezes soando um pouco a Behemoth, por vezes simplesmente originais, criando uma sonoridade propícia a amores e ódios. O aspecto visual é um foco importante da actuação da banda, seja nos trajes ou na atitude em palco, há uma certa imagem a projectar que complementa e se funde na música sendo parte da mesma. Uma prestacão mais curta do que o previsto serviu sobretudo para dar a conhecer o recente álbum “Triangle” numa viagem entre o peso e a melodia, o tradicional e o experimental.
  



  Seguiu-se uma actuação que criava muita expectativa, em palco surgiam rostos cobertos por corpse paint, os Abbath prometiam um Black Metal mais tradicional seguindo as boas tradições da escola norueguesa. O recinto, começava a ficar bem composto, e a multidão chegou-se à frente do palco. Olve Eikemo também conhecido por Abbath é no contexto actual um dos nomes mais reconhecidos do Black Metal, trazendo ao festival fãs do seu projecto actual como saudosistas dos Immortal. Iniciaram por ‘To War!’ lançando-se para um concerto non-stop, contando com uma grande execução dos temas e um grande desempenho vocal do próprio Abbath numa lição de como fazer bom Black Metal. Numa das melhores recepções até à data o público lançou-se em aplausos, crowd surfing e mosh, pausando apenas quando a banda fazia uma pausa para se hidratar sobe o forte calor que se sentia. Tocaram temas de Abbath e temas de Immortal, terminando com ‘All Shall Fall’ um concerto que subiu a fasquia para os que se seguiam de duas bandas consagradas pelos fãs nacionais. 
   
Já com a noite a tomar o lugar do dia foi a vez dos britânicos Paradise Lost, uma atuação em modo Best Of que não esqueceu o mais recente álbum “The Plague Within” pelo qual começaram com ‘No Hope in Sight’ e do qual ainda tocaram ‘Return To The Sun’, ‘An Eternity Of Lies’, ‘Beneath Broken Earth’ e ‘Flesh From Bone’, perante uma plateia bastante numerosa. 
Um concerto emotivo de ambos os lados da barricada, os Paradise Lost são uma daquelas bandas que conseguem exportar facilmente os sentimentos impregnados nas suas músicas para o publico, levando todos numa viagem entre o Gothic Metal e o Doom Metal. Cobrindo grande parte da sua discografia com uma setlist composta por 16 temas, desde “Gothic” ao recente “The Plague Within” o grupo mostrou-se em grande forma, destacando-se a intensidade com que Gregor Mackintosh faz soar a guitarra e a emotividade da voz de Nick Holmes. Depois do encore surgiram mais pesados num regresso ao passado, com excepção de ‘Flesh from Bone’, tocando ‘Embers Fire’, ‘Pity the Sadness’, e ‘The Last Time’ dos álbuns “Icon”, “Pity The Sadness” e “Draconian Times”, tendo provocado alguns mosh. Abandonaram o palco sobe um coro de aplausos muito merecidos. 
  
Para fechar o festival surgiram os veteranos germânicos Kreator, destinados a fazerem os presentes queimarem todas as energias que restavam.
Assim que os primeiros acordes de ‘Enemy of God’ ecoam no recinto soltam-se headbanging, mosh, crowd surfing e circle pits que se perpetuariam por toda a actuação e derramariam muitos litros de suor. Conjugando os trabalhos antigos com os mais recentes a setlist levou todos numa Tour de 1985 a 2012 sem grandes oportunidades para recuperar o fôlego.  
Musicas como ‘Phobia’, ‘Suicide Terrorist’ ou ‘Warcurse’ provocam uma libertação de energia que podia quebrar ossos e que soltava no ar uma poeira que nem mesmo a noite conseguia esconder e que só acalmou quando a banda saiu de palco por breves momentos antes de voltar para um encore que roubaria qualquer réstia de forças que ainda resistiria, ‘Violent Revolution’, ‘Pleasure to Kill’, ‘Flag of Hate’ e ‘Betrayer’ deixavam memorias não só na mente como também no corpo de muitos dos presentes.  O tema ‘Until Our Paths Cross Again’ do álbum “Phantom Antichrist” encerrava o concerto e o festival deixando uma promessa de reencontro, promessa repetida pelo vocalista Mille Petrozza que saía de palco com uma enorme satisfação no rosto, não sem antes prometer regressar a território nacional após a gravação do futuro álbum.
  VOA Heavy Rock Festival não é o Vagos Open Air, é diferente, é uma festival mais citadino com algumas nuances de ambiente por isso mesmo, mas estão reunidas as condições para que Corroios seja mais um local de peregrinação anual da comunidade metaleira. A organização garantiu as condições para isso acontecer, seja pelas garantias de satisfação das necessidades básicas dos festivaleiros, seja pela qualidade de som e pontualidade das actuações, seja pela experiência que acumularam e garante a agilidade necessária para lidarem com um imprevisto. Para o ano há mais, ate já. 

Texto: Henrique Duarte
Fotos(1): Joana M. Carriço (todas as fotos aqui em www.facebook.com/songsforthedeafradio )
Agradecimentos: Prime Artists


(1) Foto de EQUALEFT por Rui Bandeira/VOA FEST, Foto de DARK OATH por Nuno Santos

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