12/10/2017

[Report] Apresentação do novo álbum dos PROCESS OF GUILT em Lisboa


Para o final do ano ficaram reservados lançamentos muito aguardados de várias bandas nacionais, sendo que um dos que causava mais expectativa era o de “Black Earth” dos doomers nacionais Process of Guilt, um dos nomes maiores do género.


Ao longo dos anos têm colecionado elogios pela comunidade doom Mundial, sobretudo desde “Erosion” lançado em 2009, que na época, mesmo com grandes lançamentos como “For Lies I Sire” dos senhores do doom metal My Dying Bride, várias publicações consideraram o melhor trabalho do ano dentro do género.
Daí para a frente lançaram “Faemin” mantendo um nível crescente de qualidade e de elogios.

Repetindo a estratégia de “Faemin” voltaram a misturar o álbum com a colaboração de Andrew Schneide e a masteriza-lo no The Boiler Room LLC - Music Mastering por Collin Jordan.
Lançado em 22 setembro pela Bleak Recordings e Division Records teve honras de apresentação ao público no Musicbox em lisboa na passada noite de 4 de outubro, num Cais de Sodré muito movimentado e alegre, escorrendo a obscuridade soturna para o interior da sala esperando por ser materializada no som dos Process of Guilt.

(c) Sónia Ferreira / World of Metal
Da vizinha Espanha com a missão de iniciarem as hostilidades chegaram os Thyrant,. A banda de Málaga, formada em 2015, trazia um recém-lançado primeiro álbum “What We Left Behind”, misturando sonoridades que passam pelo doom, death e linhas melódicas oriundas do metal clássico da década de oitenta, que foram recebidas por uma casa já muito bem composta cerca das 22h30 quando fizeram ecoar os primeiros acordes na sala.

Timidamente foram conquistando alguns headbangings, envolvendo os presentes na sua música e no universo que criam. Fazendo uso de boas linhas melódicas por entre o peso arrastado dos riffs densos e da voz de Daniel Pérez constroem com sucesso a aura expressiva de sentimentos obscuros.

O pouco tempo de atuação e os temas longos escolhidos, permitiram apenas um deslumbre do primeiro trabalho e ainda a apresentação de um tema novo ‘Black Oceans’, mostrando que o segundo álbum estará já no pensamento da banda, que tendo em conta as reações, boas perspectivas se abrem relativamente ao futuro da banda.
(c) Sónia Ferreira / World of Metal
Uma boa primeira passagem do grupo por Portugal, que mostrou um projeto solido, capaz de crescer e que talvez tenha feito o suficiente para garantir novo regresso à companhia do público português.

Com o público a comprimir-se para o palco, numa casa muito bem preenchida, os Process of Guilt preparavam-se para lançar a obscuridade de “Black Earth” sobre a plateia. Apagam-se as luzes, ouve-se um “boa noite”, única comunicação que não se processará através da música e das formas que esta materializa, durante toda a atuação.
(c) Daniel Jesus / Música em DX
Sem contemplações soltam o peso opressivo da sua música, descendo um manto negro e gélido sobre os corpos que no embalo dos riffs reagem num headbanging generalizado logo desde o primeiro tema ‘(No) Shelter’.
A voz de Nuno Santos dá bofetadas de violenta realidade emocional, nocauteando o público numa introspeção coletiva, que se move como ondas em direção à escarpada costa deste “Black Earth”.

Sem supresa a setlist centra-se no novo álbum, tocado na íntegra, havendo apenas espaço para dois temas do disco anterior “Faemin”, os já obrigatórios sempre que sobem a palco, ‘Faemin’ e ‘Harvest’.
Ao vivo confirma-se a abrasividade deste novo trabalho, o romper com a melodia, subjugada à hostilidade, um viciante prazer masoquista, uma inevitável atração por passagem desoladas a que o público não consegue fugir. Sentindo o peso nos riffs, no oportuno metralhar da bateria, na violência latente na voz, que produz uma linguagem sonora hipnótica, os corpos ficam despidos da mente que se recolhe nas profundezas de si mesmo, adensando a comunhão emocional coletiva com o avançar dos temas.
(c) Daniel Jesus / Música em DX
Em palco, sentimento e intensidade, musica “vivida” que escorre pelos corpos em cada nota castigadora que soltam, em cada palavra assertiva que Hugo "berra" corrosivamente, um desempenho merecedor dos muitos aplausos que recebem e que mesmo assim parecem insuficientes.
A atuação peca talvez por curta, por não permitir uma viagem a trabalhos mais antigos, por não permitir recordar a alguns o gutural profundo e cavernoso que Hugo Santos abandonou nos mais recentes trabalhos, optando por um registo de um expressividade diferente que tão bem serve o som dos últimos álbuns, mas não apaga o saudosismo a alguns fãs de outros tempos.

Abandonaram o palco recolhendo-se nas sombras, após cerca de uma hora de atuação, sob aplausos de uma multidão sem vontade de abandonar a sala, satisfeita e salivante por mais.
(c) Daniel Jesus / Música em DX
“Black Earth” mostrou a sua força ao vivo, indiscutivelmente um dos melhores trabalhos nacionais do ano, sendo que os Process of Guilt confirmam mais uma vez a sua qualidade ao vivo, a sua capacidade para compor música de emotividade transcendente, só ao alcance de alguns predestinados.

Texto: Henrique Duarte
Fotos: Sónia Ferreira (World of Metal) [Thyrant] e Daniel Jesus (Música em DX) [Process of Guilt] a quem muito agradecemos a cedência das mesmas para esta reportagem.
Ficam aqui os links para as respectivas galerias: World of Metal | Música em DX

Agradecimentos: Viral Propaganda PR

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