04/02/2017

[Special Report] "The End Tour": Black Sabbath + Rival Sons @ O2 Arena, Londres [com vídeos]

Foto: Kevin Mazur / Wire
Ao longo de quase seis anos a SFTD Radio tem vindo a reunir reports de concertos dos maiores nomes do mundo do metal sem nunca ter conseguido riscar um nome basilar na história deste género musical sem paralelo...
Black Sabbath são há muito uma banda de consenso alargado, sendo uma influência quer nas bases históricas deste género como no rock alternativo (com óbvias incidências no rock stoner, revivalista e em qualquer praia doomesca que a música possa passear). São uma banda para além das inevitáveis fronteiras do nosso território sonoro. São um clássico.
Perder a oportunidade de juntar este nome à nossa já extensa lista de reportagens seria portanto algo inaceitável.

[Londres, 31 de Janeiro] De malas feitas, este escriba lá seguiu rumo ao aeroporto de Heathrow.
A tour final, bem expressa no seu baptismo (The End), estava fechada faz bastante tempo e fora a adição de uma segunda data na imponente O2 Arena em Londres que permitiu que o sonho fosse concretizado.
Esta seria a ante-penúltima data de uma carreira que começou em finais dos anos 60 e a última na capital britânica. As outras duas foram simbolicamente guardadas para a sua cidade natal em Birmingham.

Dias antes o nosso colega Tiago (autor do programa Black Sunshine) tinha assistido à passagem da banda por Manchester e não poupava nos elogios, aumentando a grande expectativa já sentida.
Foram várias a vezes que se especularam datas no nosso país mas a confirmação tardava e acabou mesmo por ficar em falta. Mesmo contra a histórica promessa deixada no ar, após o cancelamento do show de Ozzy (no seu Ozzfest 2002 no Estádio do Restelo) nenhum promotor português conseguiu proporcionar um dos nomes mais requisitados do universo do heavy metal.
Todavia, tivemos bem perto de receber os Heaven and Hell num Optimus Alive mas o destino pregou-nos uma partida e o resto da história já sabem.
Ao que parece teremos uma nova encarnação de Ronnie James Dio em versão holograma, mas não será a mesma coisa...

Chegando à estação de North Greenwich distinguimos a multidão pelo merchandise vestido a rigor, certamente coleccionado ao longo de anos a fio.
Na curta distancia que separa o metro (ou "tube" como os ingleses gostam de referir) e o recinto, escutavam-se línguas de todos os cantos do mundo, comprovando aquilo que todos sabíamos. Esta era uma data especial para todos nós, fãs de Black Sabbath.
A faixa etária era claramente bem madura e não apresentava necessariamente a estética metaleira. No Reino Unido há uma menor associação desta banda ao movimento que deu origem e paira a ideia que esta é uma instituição pertencente ao mundo do rock clássico. Parecendo que não, é uma dinâmica diferente do que iríamos encontrar numa hipotética passagem pelo nosso país.

A entrada no recinto da O2 Arena assemelha-se bastante com a segurança de um aeroporto. O que é feito do rock'n'roll?!
Seja como for, numa cidade completamente Orwelliana, com câmaras em todos os cantos, esta é apenas mais uma medida protocolar. E todos sabemos que os britânicos adoram os seus protocolos.
Em vez de litrosas ou barracas de imperiais tínhamos diversos Pubs, completamente repletos, na periferia da própria sala.
As inúmeras escadas rolantes e o aspecto moderno nos acessos comprovam que este é de facto um recinto incrível e que a tenda que serve de invólucro, ao contrário do que pensávamos, não faz jus ao seu interior. "Meo Arena londrina" é uma expressão que de futuro evitarei a todo o custo.

Já sentados no nosso lugar, na primeira fila do anel superior, assistimos ao concerto dos Rival Sons de um ângulo mais do que privilegiado.
Logo após a introdução Morriconiana retirada do clássico "O Bom, o Mau e o Vilão"- não sendo a mesma da banda de Lars Ulrich- o quarteto norte-americano entrou em palco com uma plateia já bem composta.

Com uma setlist ligeiramente menor do que a que apresentaram em Lisboa no polémico Rock in Rio 2016, a banda demonstrou-se consistente e profissional mas algo automatizada.
Estes rapazes têm vindo a acompanhar os Black Sabbath pelo mundo fora mas aproveitando todos os momentos na estrada para, também em nome próprio, expandirem a sua fan-base, tocando de forma diária.
O desgaste fora visível e a falta de entusiasmo, que se esperava proporcional ao evento em si, acabou por ditar um concerto fraco de memórias mas eficaz no diminuto propósito de compor e entreter a sala.
São uma dos coqueluches do hard rock contemporâneo, daquele que vai beber ao fontanário blues que outrora criou ícones de Zeppelin a Purple mas que, hoje em dia, por diversas vezes, se exemplifica como redundante.

Os Rival Sons, apesar da discografia, estão ainda no purgatório e só o tempo ditará a sua sentença mas abrir com "Electric Guy", que soa a todo aquele jogo de oitavas que premiou bandas como White Stripes e Black Keys, demonstrou bem que a estratégia continua a ser jogar pelo seguro.
Apesar do curto leque de canções apresentadas, acabaram por saltitar por toda a discografia, incidindo naturalmente nos últimos dois álbuns.
Jay Buchanan, com a sua grande capacidade vocal é evidentemente a alma da banda mas, sendo adepto de que uma banda não se faz de vozes bonitas, continuarei a dar preferência a uns tantos portugueses aos próprios Rival Sons. Esperemos que à terceira seja de vez e que dessa consiga tirar proveito das potencialidades há muito enunciadas pois ainda não fora desta.

Já com as luzes acesas, constatamos que a O2 Arena estava repleta em todos os seus níveis criando uma paisagem incrível de pessoas.
O intervalo fora curto, para surpresa desta comitiva portuguesa que ansiava por aquele momento fazia meses.
O som cinematográficamente surround surgiu mal se apagaram as luzes. Nos ecrãs surgiam imagens de um cenário dantesco de uma cidade em chamas em que um ovo eclodia uma figura demoníaca lançando chamas na nossa direcção, caindo o pano e dando início ao espetáculo que todos queríamos ver.
Foto: Kevin Mazur / Wire
Comparando com uma introdução como as que recorrentemente assistimos com AC/DC ou Iron Maiden, a desilusão fora alguma... A última Tour merecia uma produção ao nível do que a banda representa na história da música e tal não fora concretizado logo à partida...
Ficou claro que não se apostaria em show-offs desnecessários. Seria a música pela música. Como sempre fora dantes. Sem diferenciamento quanto à data em questão e em ponto de igualdade perante as restantes datas desta derradeira tour.

"Black Sabbath" , tal como em 1970, com três notas arrepiantemente suspensas serviu de ponto de partida.

BLACK SABBATH em directo da O2 Arena ,Londres (exclusivo SFTD Radio)
Publicado por SFTD Radio em Terça-feira, 31 de janeiro de 2017
Outra fosse a banda e esta não seria um opener dado o seu slow-tempo que caracteriza grande parte dos seus mais de 5 minutos. Mas retiremos o pó dos livros de história: esta não é uma música qualquer. É possivelmente a primeira da história do Heavy Metal com tudo o que isso acata... Do misticismo em torno da quinta diminuta, o intervalo diabólico; a atmosfera sombria não só musical como lírica; e claro... A drástica alteração nos tempos que na recta final criam toda aquela sensação de catarse enérgica que nos faz saltar, mergulhar do palco para um mosh... Fazer todo o tipo de coisas que não se explicam sob o tecto da racionalidade mas que quem de lá sai, sem receio de se molhar, compreende perfeitamente.
Cantou-se de pulmões cheios e brilho nos olhos: "What is this that stands Before me?..." E toda a produção, ou falta dela, fora completamente secundarizada.

Perante milhares de pessoas, os três dos deuses do metal com Tommy Clufetos na retaguarda a ocupar o histórico lugar de Bill Ward, focaram-se nos quatro primeiros álbuns (Black Sabbath e Paranoid (ambos de 1970); Masters of Reality (1971); Vol.4 (1972)), deixando apenas Sabbath Bloody Sabbath (1973) e Sabotage (1975) de fora do leque dos álbuns que comprovam, de forma a clara, como foram frutíferos em apenas 5 anos, sendo estes recorrentemente apontados como os melhores álbuns metal nos seus respectivos anos de lançamento.

"Fairies Wear Boots", "After Forever", "Into The Void", "Snowblind"... Clássicos seguiram clássicos à velocidade que a voz não conseguia acompanhar, ficando ainda mais debilitada que o próprio Ozzy ,que vocalmente se demonstra melhor do que bem recentemente se apresentava. No entanto, não se livrou da cruz de ser o elo mais fraco.
A música seguinte reflectiu bem isso, mas onde pecava Osbourne o solidário público remendava...
Para muitos é o maior épico da nossa vasta história metálica (e eu tenho para mim um tridente em constantemente luta que inclui "Hallowed be Thy Name" e "Master of Puppets"): "War Pigs" é mais do que uma música. É uma experiência.

WAR PIGS!!! BLACK SABBATH em directo da O2 Arena ,Londres (exclusivo SFTD Radio)
Publicado por SFTD Radio em Terça-feira, 31 de janeiro de 2017
Cantado de fio a pavio, naturalmente com ainda mais ênfase que nos temas anteriores, este fora um dos picos do desfile que durou quase duas horas.

Apenas três temas fugiram ao leque de escolhas em formato Greatest Hits sendo elas "Under The Sun" (Vol.4), "Behind the Wall of Sleep" (Black Sabbath) e caída completamente fora do âmbito do quarteto discográfico que anteriormente referi : "Dirty Woman" (Technical Ecstay [1976]).

Em "N.I.B." Geezer Butler proporcionou o primeiro momento instrumental com um solo sem rodeios e sem grande virtuosismo. Todos sabemos que a sua técnica é mais do que visível na forma como moldou os temas ao longo de toda a carreira. As suas linhas, dedilhadas no baixo, são o melhor dos solos.

A seguir a Tony Iommi, o único elemento presente em todas as formações, Geezer é o maior dos pilares na sonoridade da banda. Ninguém ficou a perder com uma masturbação instrumental menos vistosa.

Por outro lado, nas baquetas, Tommy Clufetos que já acompanhava Ozzy a solo desde 2010, continua a ter o peso de ter de aproveitar estes momentos. E fê-lo de forma exemplar! A dupla que é unha e carne, "Hands of Doom" e o instrumental "Rat Sallad" fora mais uma vez o timing perfeito para verificar as individualidades em palco.

O momento instrumental da noite pertenceu a este músico que no currículo tem nomes tão sonantes como Ted Nugent, Rob Zombie, Alice Cooper e John 5.
Houve ali uns toques muito subtis de "Supernaut" e "Sabbath Bloody Sabbath" com um Iommi muito discreto, como sempre, numa figura religiosamente sóbria em palco. Um contraste com a figura caricata de um vocalista instável num corpo moribundo, vítima dos excessos do passado, que quer fazer mais do que o que consegue sendo a fácil caricatura de uma banda que só o tempo dirá ser fruto de dedicação aos fãs ou puro show business.



Está já na recta final! Reconhecem esta?? BLACK SABBATH em directo da O2 Arena ,Londres (exclusivo SFTD Radio)
Publicado por SFTD Radio em Terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Outro dos momentos marcantes, e com uma maior produção em palco com a adição de pirotecnia e algumas chamas, fora o inevitável "Ironman" com o seu riff que perdurará no tempo e que continuará a ser dos primeiros acordes a serem tocados por qualquer guitarrista embrionário, tal e qual "Smoke on the Water".
Há arte na simplicidade e o crescendo neste tema é espelho disso mesmo.

"Children of the Grave" foi a apoteose de uma noite onde o saudosismo não fora visto na óptica pejorativa mas sim como sublime demonstração de respeito por uma instituição que perdurará muito mais do que nós próprios.

Children of the Grave!!! Estamos já na recta final deste antepenúltimo concerto destas lendas... BLACK SABBATH em directo da O2 Arena ,Londres (exclusivo SFTD Radio)
Publicado por SFTD Radio em Terça-feira, 31 de janeiro de 2017
Diversos mosh-pits se abriram. Este seria o último possível momento para muitos poderem por em prática o nosso espontâneo bailado. Ao som dos pais da música pesada o mosh parece forçado mas é o maior dos tributos. Na recta final de uma carreira ninguém ousa criticar tal prática.

Todos sabíamos como o concerto iria terminar mas aguardávamos um milagre temporal que arrastasse um pouco mais os minutos que pareciam passar a passo de corrida.

Um hino com a divindade Iommesca espelhada por toda a parte - como toda a discografia por sinal- teve direito aos clichés merecidos e necessários à criação de uma memória visual. De confettis a balões gigantes, a parafernália sublinhava a dimensão do simples acorde que os dedos e dedais de Iommi eternizaram em "Paranoid" levando à loucura tudo e todos.

Já com o palco vazio os milhares presentes aplaudiram de forma sentida este jogo de sombras e projecções platónicas.

Os Black Sabbath não serão lembrados pela forma estática como se apresentaram nesta despedida mas por toda uma carreira lendária que como fãs acabamos por projectar sobre aquelas figuras. Em Londres, como possivelmente em todas as cidades que tiveram oportunidade de dizer um último adeus, foram os fãs que imperaram e montaram o grande leque de recordações a reter.
Há momentos em que o saudosismo deve sobressair e vincar um critério perdulário. Este é, sem sombra de duvida, o caso.
Assistiu-se a um grande concerto e esse resultado deve-se a diversas variantes que poucas bandas alcançarão no final de suas carreiras. Foi isso que celebrámos.

Ainda custa acreditar que será mesmo o The End mas o descanso é mais do que merecido. É necessário.

Da nossa parte e por toda a influência deixada no nosso universo editorial, a SFTD Radio quer apenas deixar uma última mensagem:


Obrigado por tudo Black Sabbath!


Texto/vídeos: Tiago Queirós

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