22/05/2013

[Report] Steal Your Crown - Apresentação de «Throne of Infamy» com For the Glory, Challenge, Diabolical Mental State, Above the Hate e No Clue @ Rép. Música 18/05/2013 (com vídeos)

No passado dia 18 de Maio (sábado), a Songs for the Deaf Radio juntou-se aos «putos do hardcore» na apresentação ao vivo do àlbum «Throne of Infamy» dos Steal Your Crown na República da Música em Lisboa, proporcionado pela Hell Xis.
«São como bandos de pardais à solta / Os Putos, os Putos» - eternizou Carlos do Carmo.
O fadista lisboeta, como muito boa gente, deve desconhecer a existência destes «putos» que muitos parecem temer ou que simplesmente são alvo do julgamento alheio.
De facto, este bando de pardais à solta é um fenómeno social único, e um movimento mais do que simplesmente respeitável no nosso país.
Uma realidade que por muito que  se escreva ou que se filme, nunca será realmente compreendida por todos aqueles que nunca assistiram de perto.
Engane-se que os «putos» adjectivam uma faixa etária onde tudo é passageiro. Estes «putos», pelo menos, estão numa variância de décadas de diferença. Verificou-se isso, mesmo antes de se darem início aos concertos. À porta já se encontrava um aglomerado de gente que paga o bilhete para ver e apoiar o cartaz na sua totalidade (coisa rara nos dias que correm). Alguns deles estiveram presentes nos primórdios da cena em Portugal, outros, chegaram iluminados por uma época onde o acesso está mais facilitado. A música está à distancia de um clique e os rótulos já caíram no ridículo.Em comum, estão os reflexos de uma vida urbana, onde a selva de betão consome vidas e que naquele momento se esquece. Os «putos do hardcore» vivem para esse momento.

No Clue

Coube aos No Clue pisarem o palco para abrirem um cartaz que prometia. Ainda verdes, estão agora a começar nestas andanças. Cheios de garra, atacaram o recinto a meio-gás como se tivessem uma multidão pela frente. Foi notório a vontade de criar impacto a todos os que testemunharam a sua performance. Munidos de temas in-your-face (que arrisco dizer terem uma pitada de influência no hip-hop urbano), deram um concerto onde a falta de humildade foi apagada pela ambição de se afirmarem um nome a ter em conta.Tem de se valorizar tal atitude. Não existe má publicidade e a indiferença é o pior dos resultados. Encaixaram muito bem visto que era a noite dos SYC.
No Clue
Destaco a prestação efusiva do baixista, que relembra um imaginário Tool-esco, e que se demonstrou incansável a apoiar mais tarde as restantes bandas no frontline. Um concerto que deixa dúvidas mas que desperta alguma curiosidade pelo que está a vir.


Above the Hate
Seguiram-se os Above the  Hate com temas mais puxados para a cena metalcore, chegando a relembrar os tempos em que os Twentyinchburial eram os senhores da cena! « Bitches Are for Those Who Can't Afford Hoes» é um belo exemplo disso mesmo. Os sing-alongs fizeram-se notar e as movimentações no pit também. Concerto curto mas intenso numa bela prestação da banda. A kilometragem vai aumentando, e quem sabe, não será esta uma das bandas com um futuro risonho pela frente.

Diabolical Mental State
A jogar como possíveis outsiders deste cartel de bandas hardcore, os Diabolical Mental State presentearam o público com uma espécie de groove-metal que vai buscar muita da influência metaleira que têm vindo a crescer na vaga norte-americana. Eu tenho para mim que todo o metaleiro do séc. XXI deveria ter um altar para os Pantera.
Se numa primeira fase o público estranhou, numa segunda derreteu-se com a oferta em forma de cover que os DMS incluiram na sua setlist:« Punishment» é um clássico já old-school o suficiente para ser da idade de alguns dos presentes, quando os Biohazard agradavam aos Gregos do Hardcore e aos Troianos do Nu-Metal ( nessa altura penso que o termo ainda nem era completamente assumido).
Desde ai foi sempre a subir o tom, os temas ainda são poucos mas orelhudos. Este «Warfare» diz muito da sonoridade de uma banda que esperemos ver mais vezes por aí. Quem sabe a par de uns Primal Attack, de uns W.A.K.O., Revolution Within ou quem sabe de uns Switchtense!

Challenge
Das Caldas-da-Rainha para Alvalade, veio uma das bandas do momento, e comprovou-se por mérito próprio mais uma vez. Os Challenge não brincam em serviço e na bagagem trouxeram gente suficiente para quase jogarem em casa! Um show já com casa suficiente para vingar o esforço da Hell Xis em promover um bom cartaz, onde os circles-pits aumentavam a fasquia e onde muito suor foi largado ao som de uma tarola que fervilhava a um ritmo que não esconde o sentimento punk nos temas apresentados. A demo que lançaram parece já decorada por alguns, outros ficaram com vontade de a aprofundar, o que é certo é que aparentam ter uma experiência para além da pequena cronologia da banda em estrada. «Our Streets» arrasou a uma velocidade crust-iana assim como «The Crew» e «This is Real» demonstraram-se picos de um concerto bastante aplaudido.


Os For The Glory são incontornáveis no panorama do hardcore nacional. É  impossível andar nesta vida sem nos cruzarmos. Às vezes as probabilidades jogam mesmo a favor do público. Não há melhor exemplo do que  este para assistir de perto ao potencial de um concerto destes. Os tais «putos» deixam de parecer bandos de pardais para se tornarem predadores sedentos de mais e mais...
For the Glory
São uma instituição, um ícone com o seu lugar na história garantido e 10 anos depois os seus concertos já soam a best of num acto que muito poucos se conseguem dar ao luxo. Não se trata de repetir temas até à exaustão... Na verdade não há uma fórmula concreta, mas a familiarização com os temas é inevitável e algo realmente invejável é a capacidade como estas se tornam pessoais. Entram à velocidade de uma lança de ponta afiada, com um desejo de saírem cá para fora com maior rapidez, deixando a garganta seca e com as cordas vocais seriamente lesadas.
Numa setlist abalada, «Drown in Blood» abriu as hostes para um público rendido do princípio ao fim. Uma madrugadora «Survival of the Fittest» comprovou  que não iria ser algo crescente mas um autêntico all-in de temas fortes. «Some Kids Have No Face», «All The Same» e «All Alone» foram sempre acompanhadas de mil e um vocalistas num coro de vozes incrível.
Se reduzirmos o Moita Metal Fest 2013 a pequenos momentos, teríamos obrigatoriamente de referir «Life is a Carousel» com os colossos CongasHugo (vocalista dos Switchtense). Na República da Música repetiu-se o feito. Mais uma vez aquele momento onde dois dos grande ícones dos, respectivos géneros, partilham o palco de forma coesa, e profissionalmente amigável. Simbiose pura e dura! Duríssima!
For the Glory
Terminaram um concerto memorável com «Armor of Steel» numa ovação apoteótica que equivale ao Jamor numa certa tarde de Maio... A taça foi levantada mais uma vez. Ganharam os For The Glory numa goleada digna de uma Champions.

Steal Your Crown
Tinha tudo para ser o concerto da noite, mas se a taça vai para os For The Glory, a coroa vai para os Steal Your Crown. É uma analogia cliché, no entanto, os SYC foram mesmo coroados os Reis da noite. Noite essa que era sua à partida. «Throne of Infamy» foi para casa de muita gente que neste momento deve estar a delirar com uns autênticos Madball tugas com muito da cena old-school de Nova-Iorque.
Steal Your Crown



Já passaram quase 10 anos desde 2004, hoje são consagrados para além das margens norte e sul do Tejo. São uma referência nacional. Poderia continuar a procurar referências nuns Biohazard ou nuns Skarhead com o seu thugore, se é que isso existe, mas o que interessa aqui não são os rótulos e as suas performances são tema mais que suficiente para preencher os temas de conversa pós-concerto. A OMF Crew marcou presença. Em palco, na plateia, no bar, nas colunas... por toda a parte. Percorreu-se uma carreira dedicada ao underground, sem pudor na entrega. «Streetly Street» e «OMF» são exemplos de um concerto dedicado aos fans, onde os temas mais recentes pareciam já constarem das playlists do público. «For Real», «Walk Tall»... um desfile que fez salivar os fans culminando num tema que está longe de cheirar a mofo, « Take Me for Granted» dos tempos do Two Sides Connection. Dice e Gil foram uma dupla implacável do princípio ao fim.

Steal Your Crown
O Hardcore assenta em valores assumidos. A ambição do sucesso passa apenas pelo reconhecimento de valor e não o do tão tentador mainstream.. As bandas apoiam-se mutuamente em prol da cena local. E a magia do hardcore passa mesmo pelo sentimento underground. Esta foi uma noite onde se celebrou mais um passo importante na história de um dos elementos. A família simplesmente se reuniu mais uma vez para celebrar.

Texto e Vídeos (abaixo) : Tiago Queirós
Fotos : Inês Rodrigues (a quem muito agradecemos a cedência das imagens)
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VIDEOS (todos os vídeos neste canal do Youtube)

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